Em Licor de dente-de-leão, Ray Bradbury oferece um de seus livros mais delicados e pessoais: um romance de formação que abandona o tom futurista pelo qual se tornou célebre para se concentrar na matéria invisível do tempo, da memória e da infância. Publicado no Brasil pela Biblioteca Azul, em tradução de Adriano Scandolara, o livro reafirma Bradbury como um autor capaz de transformar experiências ordinárias em verdadeira literatura poética.
Ambientada no verão de 1928, na fictícia Green Town, Illinois, a narrativa acompanha os irmãos Douglas e Tom Spaulding durante as férias escolares. A ideia que estrutura o romance é simples e profundamente simbólica: engarrafar o licor de dente-de-leão para preservar o verão, como se fosse possível capturar em vidro o cheiro da grama cortada, o calor das tardes intermináveis e a sensação inaugural de estar vivo. A partir desse gesto quase ritual, Bradbury constrói uma sucessão de episódios que não obedecem a uma trama tradicional, mas a uma lógica afetiva e memorialística.
Douglas, o irmão mais velho, funciona como centro sensível do livro. É por meio de suas descobertas — às vezes luminosas, às vezes dolorosas — que o romance explora temas como a consciência da morte, a passagem do tempo, o envelhecimento e a perda da inocência. No entanto, nada é tratado de forma solene ou pesada. Bradbury opta por um lirismo contido, no qual cada encontro com um morador da cidade, cada caminhada pelo desfiladeiro ou cada invenção fantástica — como as chamadas “máquinas do tempo” — amplia a percepção do mundo sem jamais romper o pacto com o cotidiano.
Um dos grandes méritos de Licor de dente-de-leão é sua capacidade de articular fantasia e realidade sem hierarquizá-las. Fantasmas, memórias e invenções convivem naturalmente com o calor do verão, os rituais familiares e as conversas de varanda. O extraordinário não surge como ruptura, mas como intensificação do real — uma forma de olhar para o mundo com atenção radical. Nesse sentido, o livro se aproxima mais da poesia do que do romance convencional, funcionando como um mosaico de lembranças que se iluminam mutuamente.
Inspirado na própria juventude do autor, o romance não idealiza a infância, mas a reconhece como um território de descoberta profunda, onde alegria e medo coexistem. Bradbury escreve sobre o milagre de existir sem ignorar sua fragilidade. A consciência de que o verão termina, de que as pessoas mudam e de que o tempo avança é o que confere ao livro sua nota melancólica — e, paradoxalmente, sua força vital.
Licor de dente-de-leão é, acima de tudo, uma celebração das pequenas coisas: aquelas que passam despercebidas no presente, mas que, uma vez guardadas na memória, se tornam eternas. Ao transformar a infância em literatura de alta precisão emocional, Ray Bradbury entrega um romance que não apenas se lê, mas se saboreia — como um licor raro, feito de tempo, lembrança e luz.