Em O último Van Gogh, Edney Silvestre articula com precisão narrativa três eixos de alta tensão — arte, crime e destino — para construir um romance que atravessa tempos históricos e classes sociais, sem perder de vista o drama humano que os conecta. Publicado pela Globo Livros, o livro confirma a vocação do autor para o suspense literário de fôlego, no qual intriga e reflexão caminham juntas.
A narrativa se desdobra em dois planos temporais. No final do século XIX, acompanha-se a etapa derradeira da vida de Vincent van Gogh, marcada pela incompreensão crítica, pela precariedade material e por um sofrimento psíquico que culminaria em sua morte, em Auvers-sur-Oise. Silvestre não busca recontar a biografia do artista, mas captar o clima de rejeição e urgência que envolve a criação de suas últimas telas — um tempo em que a arte surge como resistência extrema diante da aniquilação.
No presente, no Rio de Janeiro de 2024, o foco se desloca para Igor Brown, jovem que sobrevive à margem, equilibrando trabalhos sexuais, relações transitórias e a fachada socialmente aceitável de tradutor de Libras. A entrada de Igor em uma trama criminosa envolvendo o roubo de um suposto quadro perdido de Van Gogh — obra considerada destruída durante a Segunda Guerra Mundial — desencadeia uma sequência de perseguições, conspirações e escolhas irreversíveis. O quadro, escondido em um apartamento de luxo no Leblon, funciona como objeto catalisador de desejos, violências e ambições que ultrapassam o valor material da arte.
O grande mérito do romance está no diálogo simbólico que Silvestre estabelece entre o gênio incompreendido do passado e o jovem invisibilizado do presente. Ambos são figuras deslocadas em seus contextos, marcadas pela exclusão e pela necessidade de afirmar a própria existência em ambientes hostis. A arte, nesse sentido, não aparece apenas como fetiche do mercado ou peça de museu, mas como força capaz de revelar fissuras sociais e oferecer, ainda que precariamente, uma possibilidade de redenção.
Com uma prosa ágil, cinematográfica, mas atravessada por momentos de densidade poética, O último Van Gogh combina elementos do romance policial, do thriller contemporâneo e da ficção literária. A experiência de Edney Silvestre como jornalista se traduz em ritmo e clareza, enquanto sua maturidade literária sustenta os temas mais delicados: invisibilidade social, desejo, exploração e a persistência da arte diante da barbárie.
Ao final, o romance se afirma não apenas como uma história eletrizante, mas como uma reflexão sobre quem tem o direito de existir, de criar e de ser visto. O último Van Gogh propõe que, entre telas, crimes e escolhas extremas, a arte continua sendo um campo de confronto — capaz de atravessar séculos e transformar vidas improváveis.