Amarelo-Cromo, romance de estreia de Aldous Huxley, chega ao leitor brasileiro em edição da Biblioteca Azul com tradução de Adriano Scandolara, revelando uma faceta menos distópica, mas não menos incisiva, do autor que se tornaria mundialmente conhecido por Admirável mundo novo. Publicado originalmente em 1921, o livro se inscreve na tradição do romance de costumes satírico, funcionando como um laboratório inicial das inquietações intelectuais, morais e estéticas que atravessariam toda a obra de Huxley.
A narrativa acompanha Denis Stone, jovem poeta inseguro e excessivamente autoconsciente, convidado a passar uma temporada em Crome, mansão campestre onde se reúnem representantes da elite inglesa — aristocratas, escritores, artistas e diletantes de toda ordem. O cenário, à primeira vista idílico, logo se revela um espaço de estagnação e vazio: conversas eruditas que não levam a lugar algum, debates filosóficos transformados em performance social, flertes calculados e uma ociosidade sofisticada que encobre uma profunda incapacidade de ação e de afeto genuíno.
O grande mérito de Amarelo-Cromo está na precisão com que Huxley disseca esse microcosmo social. A mansão funciona como metáfora de uma classe que vive de gestos e discursos herdados, mas esvaziados de sentido. Cada personagem encarna uma forma distinta de alienação: o intelectual que transforma ideias em ornamento, o artista que confunde cinismo com lucidez, o aristocrata que administra o tédio como se fosse um privilégio. Denis, ao tentar se integrar a esse universo, descobre que o caos interior que o aflige não é exceção, mas regra — apenas disfarçada por etiquetas sociais e um verniz cultural.
Estilisticamente, o romance já anuncia a ironia refinada e o olhar clínico que se tornariam marcas registradas de Huxley. A prosa é elegante, ágil e atravessada por um humor que oscila entre o sarcasmo e a melancolia. Não se trata apenas de ridicularizar a elite, mas de expor um mal-estar mais amplo: a dissociação entre pensamento e vida, entre sensibilidade e ação, que afeta tanto os personagens quanto o próprio protagonista.
Lido hoje, Amarelo-Cromo preserva uma surpreendente atualidade. A crítica às “extravagâncias vazias”, às poses intelectuais e à circulação incessante de discursos sem compromisso ecoa fortemente em um mundo igualmente saturado de opiniões, performances e identidades em vitrine. Nesse sentido, o romance ultrapassa seu contexto histórico e se afirma como um retrato duradouro de uma modernidade que aprende a falar muito, mas a sentir e agir cada vez menos.
Esta edição brasileira, ao recuperar o primeiro romance de Aldous Huxley, oferece ao leitor não apenas uma curiosidade bibliográfica, mas uma peça fundamental para compreender a gênese de um escritor profundamente atento às contradições do seu tempo — e, como se prova aqui, também do nosso.