O lançamento de Poesia completa, da Círculo de Poemas, restitui ao centro do cânone uma das vozes mais singulares da poesia brasileira. Ao reunir integralmente a obra de Gilka Machado, o volume não apenas organiza um legado disperso ao longo de seis décadas de escrita, como reafirma a atualidade estética, ética e política de uma poeta que enfrentou — com rigor formal e audácia temática — os limites impostos à sensibilidade feminina em seu tempo.

Nascida no limiar entre o século XIX e o XX, Gilka Machado estreia sob a convivência de forças poéticas contrastantes: o apuro parnasiano, a atmosfera simbolista e a iminência da ruptura modernista. Desde os primeiros poemas, porém, a autora imprime uma assinatura inconfundível. Sua poesia afirma o corpo e o desejo como campos legítimos de experiência estética, fazendo do erotismo não um ornamento, mas um princípio de conhecimento. Em “Sândalo”, poema inaugural citado com justeza no material de apresentação, o perfume é “volúpia da terra”, imagem que condensa a fusão entre matéria e espírito que atravessa toda a sua obra.

A recepção de Gilka Machado foi marcada por uma contradição reveladora: enquanto a excelência técnica lhe garantia prêmios e o reconhecimento de figuras centrais da literatura brasileira, sua liberdade expressiva — especialmente no tratamento do erotismo e da autonomia feminina — suscitava ataques e tentativas de desqualificação moral. O que hoje se lê como gesto pioneiro de emancipação estética foi, à época, frequentemente recebido como provocação inadmissível. Ainda assim, a poeta manteve-se fiel à convicção de que a poesia é uma forma essencial de vida, tão necessária quanto “a água, o ar, a luz, a crença, o pão e o amor”, como declarou em nota autobiográfica de 1978.

A edição organizada por Jamyle Rkain é exemplar ao respeitar essa trajetória. Poesia completa reúne os livros Cristais partidos (1915), Estados de alma (1917), Mulher nua (1922), Meu glorioso pecado (1928), Sublimação (1938) e Velha poesia (1965), com o texto fixado a partir da última edição revista pela própria autora. O aparato crítico amplia a leitura sem a engessar: o posfácio de Rkain oferece uma chave de leitura sensível e informada; o ensaio de Nádia Battella Gotlib inscreve a poeta no debate acadêmico contemporâneo; e o depoimento concedido por Gilka em 1979 adiciona uma dimensão rara de autorreflexão.

Mais do que uma reunião definitiva, este volume afirma Gilka Machado como uma poeta indispensável para compreender as tensões entre forma, desejo e liberdade na literatura brasileira. Ao trazê-la novamente ao presente, a Círculo de Poemas não apenas corrige uma lacuna histórica, mas oferece aos leitores de hoje uma obra que permanece viva, insurgente e luminosa.

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