Memória, exílio e literatura como forma de sobrevivência

Publicado originalmente em 1966, Os itálicos são meus é um dos testemunhos mais importantes da primeira onda da emigração russa que se seguiu à Revolução de 1917. Escrito por Nina Berbérova (1901–1993), o livro ultrapassa o registro autobiográfico para se afirmar como uma poderosa reflexão sobre deslocamento, perda, criação literária e liberdade individual em meio às grandes rupturas do século XX.

Nascida em São Petersburgo, Berbérova viveu os anos finais da Rússia tsarista, o período pré-revolucionário e os desdobramentos violentos da Revolução Russa, incluindo a fome e a Guerra Civil. Em 1922, deixa definitivamente o país ao lado do poeta Vladisláv Khodassiévitch e inicia uma longa trajetória de exílio pela Europa — Alemanha, Tchecoslováquia, Itália — até se estabelecer em Paris, em 1925. É ali que participa ativamente da vida intelectual da emigração russa, convivendo com nomes centrais da literatura e do pensamento do período, como Ivan Búnin, Zinaída Guíppius, Maksim Górki, Roman Jakobson, Vladímir Nabókov e Marina Tsvetáieva.

Dividido em sete capítulos, Os itálicos são meus constrói um amplo arco narrativo que acompanha a formação da autora e também a organização cultural de uma intelligentsia expatriada, privada de sua terra natal e forçada a reinventar suas formas de pertencimento. O livro traça um retrato comovente de vidas despedaçadas, marcadas pela precariedade material, pela instabilidade política e pela persistência da criação artística como espaço de resistência.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o relato se adensa ainda mais, registrando o impacto do conflito no cotidiano de pessoas comuns e o cenário de vazio e ruína deixado pela guerra. Já em solo norte-americano, para onde Berbérova se muda em 1950 — com apenas duas malas, setenta e cinco dólares e sem falar inglês —, a autora alcança a maturidade e faz um balanço de sua trajetória. Nesse novo momento, reinventa-se mais uma vez, lecionando língua russa na Universidade Yale e, posteriormente, literatura russa na Universidade Princeton.

Ao longo de todo o livro, os testemunhos de Berbérova são marcados por uma escrita intensa, por vezes lírica, sempre atravessada por uma profunda consciência histórica. Comprometida com a própria liberdade e com a literatura, a autora encontra na escrita não apenas memória, mas sentido de existência — mesmo diante dos constantes bombardeios, literais e metafóricos, que atravessaram sua vida.

Com tradução de Aurora Fornoni Bernardini, Moissei Mountian e Irineu Franco Perpetuo, Os itálicos são meus é leitura fundamental para quem se interessa por literatura russa, história do século XX, narrativas de exílio e pela força da escrita autobiográfica quando atravessada pela experiência extrema da História.

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