Uma, jurista: Eliete de Fátima Guarnieri. Outra, dramaturga: Anna Kroiss. Embora profissionais ativas e engajadas em seus trabalhos, tanto Eliete quanto Anna têm seus hobbies. Piano, a primeira, representação, a segunda. Mas, em primeiríssimo lugar, para ambas, a escrita.
Donas de uma expressão privilegiada, onde o rigor não faz concessões a invencionices dúbias ou a despautérios, permitem-se, entretanto, incursões e descobertas na psique de suas personagens. E é essa mesma psique que por meio delas fala e… age.
Não é por nada que ambas as narradoras escolheram o gênero conto. Mas, trata-se do conto breve e, na maioria dos casos, brevíssimo. É justamente porque a emoção dura pouco e o impacto, por sua natureza, é fulminante. E depois, conforme explicou mestre Ricardo Pilha, porque no conto há sempre uma história linear na superfície e uma história oculta por baixo, que se manifesta pelos interstícios abertos na linearidade e surpreende o leitor: é o segredo do conto. E é isso que se encontra na obra das duas escritoras. Sabedoras disso, elas abordam as personagens, os fatos, as ambiências, por diferentes prismas. Anna, pelo canto, que dá o título ao seu livro: Todos os cantos do Eros (2025). Eliete, pelo grito: Quando o estômago grita (2023). (Eliete publicou mais duas coletâneas de contos: Quando a alma viaja e Quando o coração sangra, respectivamente de 2024 e de 2025). Ambas as publicações de estreia das duas narradoras foram feitas pela editora Patuá.
Vamos começar por alguns dos cantos, como quer a estreante Anna.
O canto do desejo: se realiza pela violação da parceira Isabel, noiva apaixonada e recém-casada expectante, e se consome na dilaceração de Isabel. Isabel é a extremação do desejo. O desejo como monstro, como dirá Proust. Ou furor, como dirá Marsilio Ficino, o desbravador de Platão.
A essa extremação física corresponde, abstratamente, a alucinação da jovem viúva que, tendo perdido o ser amado, o reencontra como espírito, como Holy Ghost, na cerimônia do pastor, em Oklahoma. São duas extremações possíveis do desejo: uma concreta e outra abstrata.
Esse desejo de possuir o outro, de ter poder sobre o outro, tem gradações. Uma delas é vivida pela jovenzinha de vestidinho cor-de-rosa que faz questão de seduzir o velho porteiro da escola onde estuda, com sua beleza, com suas atitudes, com sua malícia, e abandoná-lo em seguida, certa de ter completado a obra.
No conto-canto chamado Um Pássaro, o estetoscópio não acusa batimentos nem pulso no rapaz que foi ao consultório da doutora, levado por dois colegas que estranhavam seu comportamento ausente no trabalho. Era um caso de morto-vivo que interessou, além dos envolvidos, a própria imprensa, que durante certo tempo continuou relatando em boletins a falta desses batimentos no paciente, agora recolhido a um hospital. A doutora que o acompanha o transforma em seu confidente silencioso e passa a contar-lhe os segredos de sua infância, entre os quais o do canto jamais ouvido antes de um estranhíssimo pássaro.
Certo dia, o hospital lhe dá alta e o paciente sai, senta-se num banco e ouve um som. O som é de um pássaro com um canto completamente desconhecido e, pela primeira vez em sua vida, o jovem sorri.
O outro canto é a história de Cecília. Cecília que morreu jovem: a mãe desesperada, não pode aguentar a dor. E ela é como que consolada pelo professor particular de Cecília, que também a ama e que também jamais suportou uma dor tão grande. É um amor que se manifesta pela solidariedade da dor compartilhada.
Outro conto de Anna diz respeito a mulher terrível. Uma mulher que foi internada no sanatório e depois de longo tempo foi buscada pelo marido quando o sanatório lhe deu alta. Ele a leva para casa e consegue cancelar o motivo pelo qual ela havia sido internada. Num acesso maldito da fúria de Medeia, ela havia queimado os dois filhos.
Passados os anos, o marido a recebe de volta e ambos passam a esperar um terceiro filho. É o canto do perdão
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No caso de Eliete Guarnieri, como se concretiza esse élan universal? Como ele se somatiza em protagonistas psico-orgânicos, conforme diz o médico prefaciador de seu primeiro livro? Como reage e grita o estômago das personagens de seus contos? Como agem esses protagonistas? Vejamos alguns casos.
À gravidez indesejada da protagonista do conto “ Sapatinhos verdes”, segue-se uma série de fenômenos involuntários, como a hiperêmese gravídica, diagnosticada pelo médico da família, e uma porção de outros sintomas que levam a agora esperançosa expectante ao grito da perda de seu fruto. Restam os sapatinhos…
A reação pode ser a fuga, pelo medo que suscitou o enigmático hotel de Chillan nos membros da família em férias, quando eles viajaram e o GPS do carro não conseguiu localizar o lugar e ninguém conseguiu justificar uma série de eventos incompreensíveis que se sucederam na desastrosa chegada.
Pode também ser o grito de ânsia da velha Philomena, que quer deixar de viver antes do desaparecimento de seu último filho, depois de ver seus outros, um após o outro, partirem antes dela.
Há também gritos de inveja, no caso dos amigos que veem um casal conhecido, privilegiado, conseguir a ainda rara vacina da Pfizer, que permite ir ao estrangeiro, mesmo sem haver agendado a visita ao posto de saúde, durante a epidemia do Covid-19, em 2021.
Ainda há o grito do desejo incestuoso pela filha, do marido que deixou de desejar a mulher, após ela haver dado à luz.
Há o grito de paixão de Aril e Arila, que se encontram casualmente e desaparecem pela mesma obra do acaso.
Com gritos de gozo, há o furioso que enfia os dentes afiados na pele da vítima, perfurando-a, feito morcego.
Finalmente, há o grito exausto da baiana Dona Iraci, que lava a roupa interminavelmente e o grito de angústia da senhora romena, que sente que vai morrer junto com o esposo.
O grito de saudade fica com a namorada brasileira, ao saber que o amado chileno voltará definitivamente para Santiago.
“Sofrimento faz muito bem ao escritor”, diz o poeta, contista e romancista Mafra Carbonieri, na orelha do último livro de contos de Eliete, que traz, como os dois anteriores, atualidade na matéria e estilo certeiro.
Mas o que os treze contos do livro de estreia da Eliete Guarnieri, Quando o Estômago Grita, tem em comum com os onze contos de Todos os Cantos de Eros, de Anna Kroiss?
Justamente o que Mestre Carbonieri caracterizou como Dark Novel e, em nossos termos, o lado obscuro do Eros.
Como se concilia esse eros, tão antigo quanto a humanidade, com os gritos e os cantos das duas escritoras? Vamos apontar algumas dimensões possíveis, vislumbradas desde Platão (428-347 a. C.) até Agamben, em nossos dias.
Conforme se sabe, muitas são as acepções do termo eros, que provém do grego antigo ἔρως, significando, originariamente, uma força que une os elementos do universo, surgido do caos. Isso diz Hesíodo (776 a.C.) em sua Teodiceia.
Trata-se de uma energia de vida ou também de morte, como virá a dizer Freud em sua obra.
Ainda na Grécia Antiga, Platão, em O Banquete apresenta eros como um desejo de completude. Em Fedro, ele o vê como uma estrutura de falta e de busca: desejar o que não se possui.
Existe uma modalidade de eros chamada ágape, (que vem de agapan – αγαπάω – grego antigo), que significa cumprimentar com afeição ou proteger. Esse conceito de ágape foi atualizado pelos cristãos, que viram nele uma modalidade do amor como caridade, como solidariedade, próxima daquilo que os gregos chamavam philia, amizade, afeição, amor fraterno, o oposto de fobia.
Aristóteles vê justamente a philia como sendo essencial para a convivência humana: o sentimento de afeição, amizade e amor fraterno.
Lévinas, já em nossa época, vê o eros como relação com o outro, que não se reduz, como muitos autores querem, à vontade de poder, à vontade de possuir: vai muito além.
“Conhecer o próprio é das coisas mais difíceis”, dizia Hölderlin (1770-1843), o grande poeta alemão que – dizem – morreu de amor. Imagine-se conhecer o outro.
São esses sentidos, e mais alguns, que se escondem nos cantos e nos gritos das narradoras. O eros, abusado durante milênios, pode esconder a violência com que o homem submete a mulher; neste caso, visto como gozo e vontade de poder, ou vingança e revide, é furor, diz Marsilio Ficino, em sua obra chamada O Livro do Amor (existe tradução em português).

Agamben vê o amor como o acolhimento da singularidade irredutível do outro. “O desejo é uma imagem; a intimidade é emocional; a paixão é física e o compromisso é a decisão de manter uma relação”. A filósofa francesa Luce Irigaray entende o eros como o reconhecimento da alteridade, não como apropriação ou subordinação.
Proust é mais radical. “Havendo escolha, a escolha só pode ser má”, diz ele. “A posse faz murchar, o desejo faz florescer. O amor é a superação daqueles redemoinhos que depois de uma emoção perturbam a alma. O ciúme é a necessidade de tirania aplicada às coisas do amor. Mentimos para aqueles que nós amamos”. Sempre de Proust é a sentença: “Estamos sempre cercados de monstros e deuses”. De monstros e de deuses. O monstro que envolve, que cerca justamente o primeiro protagonista do conto de Eliete, é o monstro da solidão e da miséria. O velho maltrapilho, habitante das ruas do centro velho de São Paulo, que se agacha e pratica a cacofagia. Da mesma forma que a pobre Isabel, que também começa o outro livro, o livro da Anna, é dilacerada pelo demônio do desejo-furor.
Embora as duas escritoras tenham momentos de contemplação serena dos fatos da vida (não por nada esses momentos de ambas evocam a infância), como em O Cordeiro Honesto de Anna e no Bolo Mármore de Eliete, no restante das narrativas há cantos, gritos, desejos, pulsões do eros que, quando não são de morte, aluem decididamente a vida.
A par dessas exemplificações, resta ao leitor encontrar outras, nessas obras tão bem escritas e certamente enriquecedoras.
Aurora Fornoni Bernardini
Aurora Fornoni Bernardini é professora, escritora e tradutora. Na Universidade de São Paulo (USP), além de mestrado e doutorado sobre futurismo russo e italiano, concluiu em 1978 sua livre-docência sobre Marina Tsvetáieva. Bernardini começou a estudar russo em 1958 e, no fim da década de 1960, durante o mestrado, foi convidada para lecionar no curso de russo da USP por Boris Schnaiderman (1917–2016). Atualmente é professora titular de pós-graduação nos programas de Literatura e Cultura Russa (atual LETRA) e de Teoria Literária e Literatura Comparada (FFLCH/USP). Em 2003, foi finalista do prêmio Jabuti pela tradução de Cartas a Suvórin, de Anton Tchékhov (Edusp, com Homero Freitas de Andrade); em 2004, recebeu o prêmio Jabuti (segundo lugar), com o poeta Haroldo de Campos, pela tradução de Ungaretti: daquela estrela à outra (Ed. Ateliê Editorial); em 2006, foi vencedora do prêmio APCA pela tradução de O exército de cavalaria, de Isaac Bábel (CosacNaify, com Homero Freitas de Andrade); em 2006, foi contemplada com o prêmio Paulo Rónai pela tradução de Indícios flutuantes — poemas, de Marina Tsvetáieva (Martins Fontes), de quem Bernardini ainda verteu Vivendo sob o fogo: confissões (Ed. Martins, 2008); em 2007, foi vencedora do prêmio Jabuti (terceiro lugar) também pela tradução de Indícios flutuantes; em 2014, foi finalista do Jabuti pela tradução de “Os sonhos teus vão acabar contigo”: prosa, poesia, teatro, de Daniil Kharms (Kalinka, com Daniela e Moissei Mountian).