Rabo de foguete: anos de exílio

Rabo de foguete é ao mesmo tempo um documento histórico e uma obra literária, imortalizada na voz de Ferreira Gullar, um dos maiores nomes da literatura brasileira. Edição com imagens inéditas.

Em Rabo de foguete, o pessoal e o histórico se confundem: trata-se de um livro de memórias com ritmo de romance. Nestas páginas, Ferreira Gullar narra como os anos de chumbo da ditadura civil-militar brasileira o atingiram e levaram a viver no exílio durante a década de 1970.

Voz ativa e contrária ao regime imposto, Ferreira Gullar se viu obrigado a cair na ilegalidade no final dos anos 1960. Foi abrigado por amigos no Rio de Janeiro, depois seguiu para o desterro em países como Uruguai, Argentina, União Soviética, Chile e Peru. Sua odisseia termina com o retorno ao Brasil, em 1977, ainda como perseguido político, o que o levou até os porões do DOI-CODI.

Nas palavras do escritor e crítico Davi Arrigucci Jr, “a exemplaridade do destino do poeta, transformado em personagem de si mesmo, tem particularidade e valor simbólico para chegar a cada um e a todos”. Este é um relato pessoal capaz de expressar a dor a e angústia compartilhada pelos perseguidos políticos latino-americanos durante as décadas de ditaduras no continente.

A edição da José Olympio traz ainda fotografias do exílio e imagens inéditas do passaporte de Ferreira Gullar – cancelado pela ditadura – e de relatórios do Serviço Nacional de Informação (SNI) sobre o paradeiro do poeta.

Rabo de foguete, o livro de memórias de Ferreira Gullar sobre seus anos de exílio na década de 1970, durante a ditadura militar em nosso país, mais do que o relato de uma experiência individual é a história de um destino humano no contexto histórico global de nosso tempo.” – Davi Arrigucci Jr., Folha de S.Paulo

Um dos mais importantes literatos da história da literatura brasileira.” Estadão

O seu legado é a obra, que, às vezes, faz a gente até esquecer a biografia. Mas este não é o caso. Ele teve uma vida bonita, difícil e de grande dignidade. O sofrimento do exilado não lhe tirou a graça. Nélida Piñon em depoimento para O Globo

A imagem mais forte de Ferreira, para mim, vem do meu período na prisão. Ele estava, junto com Gil, Antonio Callado, Paulo Francis e outros, num xadrez ao lado do meu. Sua lucidez e sua firmeza faziam dele o melhor companheiro imaginável. Todos os jovens que estavam na minha cela eram gratos a ele pela solidariedade e eficácia em ajudar. Caetano Veloso

O que sempre marcou a conduta de Ferreira Gullar, para além da extraordinária qualidade de sua obra, foi a coragem de assumir a defesa da liberdade em momentos críticos da vida brasileira.Antonio Carlos Secchin, O Globo

Um rubi no umbigo

Em uma pena afiada para a prosa, o poeta Ferreira Gullar cria, com Um rubi no umbigo, uma tragicomédia de “humor selvagem e revoltado” 
   
 Este Um rubi no umbigo, de Ferreira Gullar, é uma comédia à brasileira. Tudo começa na casa de uma família de classe média, onde vivem o casal Everaldo e Doca, e o filho, Vítor. Um lar bastante comum, se não fosse por uma circunstância curiosa: Vítor, um jovem de vinte anos, tem um rubi costurado no umbigo – o único meio que sua falecida avó encontrou para salvá-lo de uma morte prematura. Quando a família se viu afundada em dívidas, o pai, Everaldo, encontrou uma solução simples para os problemas: retirar o rubi do umbigo do filho para pagar os débitos. 
 Inspirada em uma notícia de jornal, esta peça de Gullar, escrita em 1970, foi publicada somente em 1978, poucos anos após seu retorno do exílio imposto pela ditadura civil-militar. A primeira montagem, encenada no ano seguinte, contou com a direção de Bibi Ferreira e importantes nomes da dramaturgia, como Roberto Fróes, Osmar Prado e Ana Lúcia Torre. 
 Sucesso de crítica, Um rubi no umbigo apresenta muitas dimensões interpretativas, entre elas, a política, a social e a psicanalítica – esta última muito bem abordada pelo poeta e teórico Hélio Pellegrino, em texto de 1979, aqui incluído integralmente. 
 Esta edição, além de retomar o texto de 1978, inclui: a reprodução fac-similar das emendas feitas à mão pelo autor em um exemplar da primeira edição;a publicação do texto final da peça, reescrito por Gullar após assistir à montagem de Bibi Ferreira;o recorte de uma reportagem sobre o caso do homem que tinha um rubi no umbigo;algumas imagens do programa da montagem de 1979 e fotos da mais recente, de 2011;e textos que aproximam o público do debate crítico acerca da peça. O projeto gráfico, assinado pelo artista visual Gustavo Piqueira, é inspirado na edição de 1978 projetada por Eugênio Hirsch. 

“A peça é grave, apesar de sua irresistível garra hilariante.” – Hélio Pellegrino 
 “O humor de Gullar é tão sutil e exigente quanto o de Kafka.” – Luiz Carlos Maciel, Veja 
 “Que privilégio para mim ter tido a oportunidade de ensaiar Um rubi no umbigo deste grande Ferreira Gullar. Sua peça desliza pela verdadeira carpintaria teatral aliada a uma realidade conduzida ao palco através do riso.” – Bibi Ferreira 

Romances de cordel

Reunião dos cordéis de Ferreira Gullar ressurge, em momento oportuno, como um alerta contra o saudosismo autoritário. 

Romances de cordel reúne trabalhos de Ferreira Gullar criados especialmente no Centro de Cultura Popular (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), nos anos 1960. São consequências de um convite feito pelo dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho – o Vianinha – para que Gullar participasse das iniciativas do CPC, àquela altura, um grupo recém-formado que aglutinou originalmente realizadores de teatro. A parceria com a UNE costurada por Vianinha, mais que promissora, também significou uma oportunidade única para que os artistas engajados na militância política pudessem colaborar em conjunto. Esse mergulho nas causas populares rendeu criações que marcaram para sempre a cultura brasileira, sendo este Romances de cordel a notação de seu braço literário. 
 A pedido de Vianinha, Gullar compôs João Boa-Morte cabra marcado para morrer, texto que, a princípio, seria adaptado para o teatro, mas acabou sendo publicado apenas em um folheto típico dos cordelistas. Assim também foi feito com Quem matou Aparecida?, que conta a história de uma mulher, moradora da extinta favela da Praia do Pinto, no Rio de Janeiro, que, em um ato de desespero, ateia fogo à própria roupa. Seguem-se, ainda, os cordéis Peleja de Zé Molesta com Tio Sam, uma engenhosa alegoria de denúncia da dominação cultural e política dos Estados Unidos sobre os países da América Latina, e História de um valente, que relata a prisão de Gregório Bezerra pela repressão política da ditadura civil-militar. Todas essas histórias ganham, aqui, nova edição em projeto gráfico refinado, acompanhadas pelas ilustrações do grande xilogravurista Ciro Fernandes – um dos nomes mais importantes das artes visuais no Brasil – feitas especialmente para estes cordéis que a Editora José Olympio publica com orgulho. 
 Este livro representa, portanto, não apenas a perpetuação da lira política de Ferreira Gullar, mas também presta devida reverência ao imaginário das lutas populares que se mantiveram perseverantes. Nos dias tumultuados que confirmaram o golpe de 1964, o CPC foi alvo de extremistas, que, na noite de 31 de março, atiraram a esmo contra a sede da UNE. No dia seguinte, Gullar, junto de Teresa Aragão, testemunhou a destruição completa do prédio. “Assistimos ao incêndio da sede da UNE por fanáticos que passavam por nós com as bombas e armas na mão. Se nos reconhecessem, teríamos sido linchados.” A tais atos de intolerância política, que pretendiam desarticular o CPC, Romances de cordel ressurge como um sobreaviso. Sua permanência celebra os ideias de justiça social que não esmorecem. 

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