Touchscreen – crônica de Júlio Bonatti


A situação estava normal até alguém tropeçar em mim. Ela se desculpou rapidamente e continuou seu percurso concentrada em um tipo de aparelho que segurava com as mãos. Acompanhando-a com os olhos, por um momento tive a impressão de que ela rastreava algo no chão com o seu dispositivo enquanto andava – no caso, essa é a impressão lógica que uma pessoa de outra época teria ao ver alguém caminhar todo encurvado com o olhar dirigido para baixo –, mas não.

O efeito desse contato brusco me fez perceber que à minha volta haviam descoberto uma outra odisseia no espaço, um planeta retangular que emite luz própria e reage a um simples toque com a ponta dos dedos. Mediante a simples observação de alguns espaços de sociabilidade, foi possível verificar que além de assimilar uma nova linguagem as pessoas se viram na necessidade de desenvolver um comportamento específico, tanto no habitat doméstico como ao ar livre em uma avenida: de repente, todos estavam imersos nesse pequeno universo. Passando repetidas vezes por aquelas vias urbanas, mantendo as fronteiras do convívio social com a naturalidade de sempre, como pode agora isso me parecer estranho? Um mundo touchscreen, rápido e imparável – fomos capazes de inventar a mais curiosa forma de promover a comunicação entre os seres vivos, deslocando o lugar real da fala para o espaço virtual.

Mas a transformação da paisagem que se processa na experiência sensível pela tela de um aparelho tomou consequências existencialistas interessantes. Nunca o “ser” esteve tão próximo das “palavras” como vemos agora: o ser somente existe na representação. Não simplesmente as coisas, mas a própria experiência por si mesma: os olhos são terceirizados, a visão deixa de ter sua importância de olhar e passa à função de “meio”, de instrumento acessório para a foto ou vídeo. O olhar para um objeto qualquer, um ponto turístico, uma reunião de amigos, uma apresentação musical, um jantar no restaurante, a calçada: todos perdem o seu sentido enquanto “acontecimento” e tornam-se “registro”, “documento” a ser partilhado por nosso simulacro nas redes.

Vivemos como se fosse preciso contar para alguém tudo o que estamos vendo. Não somente há essa necessidade compulsiva de registrar e de contar para os outros, como sentimos que é um descaso não registrar um momento: tornou-se um compromisso com a nossa própria vontade de visualizar no futuro o que passamos agora. Ou seja, precisamos do dobro de tempo para viver: o tempo da experiência propriamente dita e o tempo da visualização dessa experiência. Essa representação acaba por ter um status de realidade muito mais importante, posto que editável, passível de cortes, de uma redação, de uma explicação. Cada imagem vem acompanhada de uma legenda, de uma narrativa que a justifique – e a intensidade daquela vivência retratada cresce conforme a repercussão no meio de circulação.

Não obstante, nunca o conceito de “celular” fez tanto sentido. Cada um se mantém isolado, mesmo se estiver acompanhado: o casal de namorados, estudantes voltando da escola, trabalhadores apressados – todos na tarefa interminável de dedilhar compulsivamente o fluxo de notícias dos instagrams e facebooks, de responder ao sininho dos whatsapps, de dizer sim/não em algum aplicativo que exige dedicação constante.

Todavia, há ainda aqueles que não se rendem a essa sedução – pude constatar isso um dia desses quando vi um senhor de meia idade andando normalmente numa alameda, a cabeça erguida como que a observar a paisagem do seu entorno. Não podia perder a oportunidade de conhecer um sobrevivente de outra era, um verdadeiro dissidente; e, quando passei por ele, perguntei as horas para puxar um assunto. Trágica esperança a minha. Embora estivesse com um relógio de pulso, ele tirou do bolso um aparelho celular; apertou um botão lateral, deslizou o indicador na tela e disse: “São treze horas”. Mal tive tempo de agradecer a informação e ele saiu em passos rasos, a cervical inclinada para frente, o olhar fixo como um cego a contemplar aquela realidade imanente que repousava inquieta em suas mãos.

Júlio Bonatti é doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, tendo realizado parte do seu projeto como pesquisador visitante na School of Languages and Applied Linguistics da Open University, Inglaterra.

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