Poemas inéditos do poeta Moisés Alves

Fotografia de Dirk Skiba


big bang

minha gravidade é essa jazida
que trago nas mãos
veja

dançamos
depois paramos a dança bem no meio
os ritmos nos jogaram para trás
há sempre alguma coisa se jogando
na casa ao lado
ouvimos um orgasmo
rasgando-se dos muitos corpos
dentro de um corpo
estraçalhando
inundando de leveza
aguando

mas
durante a explicação já era tarde
tivemos que voltar para os mesmos lugares
sem pistas de pouso
os lugares moveram-se
céu fechado
ai

cabeças também não param
eu rodo e caio algumas vezes
você me acompanha

os tempos estão vivos na garganta
eu estou viva pé de cabra viva
se eu for ele diz
o que você faz
eu fico


bunker

no congo
cada um possui
seu animal
e é furado por ele
enquanto se ajeita
se aperta se move
estátua

no congo
o amor é esse animal
que engorda feito um porco
preto da mata destinado a invadir
zonas de perigos frágeis
para que o perigo forte consiga entrar
o perigo entra
o perigo derruba tudo feito de pétala

o amor se usa assim
a gente põe uma pata
no lugar
e fica até a pata
estragar

por isso que no congo
o amor vaza
pelos buracos
na gargalhada
algumas vezes
em lágrimas

o congo
conhece a força do precário
porque a vida é ar
e ar escreve e apaga
põe o óbvio para circular
de modo que se você
se apaixona no congo
você tem sempre ao lado
titânio

ninguém se queixa
se um dia resolve o animal
violentar além do suportável
violentar a violência
que o protege
dos colapsos

o rastro desse animal
só um outro de violência
par flagra
um animal composto por vários pedaços
dourados de porco selvagem
que meu bicho caça

vários espíritos de bicho
levantam-se nas florestas
quando animais se amam

acho que neste caso
essa palavra falha
a palavra não é justa
não está à altura
do que pulsa


a pergunta devolvida

fazer
assim uma perda
que sempre escapa
dissimulada

não consigo
reter essa perda
conquistar essa terra estrangeira
retê-la
para pôr no incêndio
das paredes
das caveiras

um resto
de perda
que vem e vai
atlética

tenho fissura
em reconstituir
o que ela pode
o que uma perda faz
inacabada
aberta

uma cartografia das sensações mal qualificadas

um bêbado me dizia
a perda é apenas um acesso
sublime
violento
de grande pulsão e beleza

você diz
isso se esbarra na gente
nos carrapata
como um beijo

não consigo responder à coisa nenhuma
apenas devolver a pergunta
indo no que nela queima


pequenas profecias

não tenho história para contar
aliás
nenhuma
que te interesse
na mesa
estamos unidos por laços de abandono
todos eles presentes
eu digo
me falta uma história que me convença
e nenhuma sobre esse chumbo
sobre minha cabeça a sua
de chumbo
nenhuma
sobre esse sol no corpo
que a gente vai perdendo
para outra coisa
quase sonora
whatever
eu disse
e como sempre
você ajeitou a frase
minhas frases saem tortas
sobretudo
agora que fazemos um filme
agora que editamos tudo
as alças quebradas
das coisas que se quebram
as avarias irreparáveis
que erguemos como uma trupe
de circo
agora que perdemos a localização das ilhas
estamos juntos nesse laço
de distância
a distância é quando uma mão não alcança
a impossível manufatura das paixões
qual era a frase
qual é minha estatura
diante de um acontecimento
se fico em proporção
se tenho chance
onde
você me diga
alargo as chances
para proteger os delirantes
os desvairados
as putas
desse país em neblina
quanto você já pagou
para proteger um delírio
quanto por favor
me diga


oferenda

minha mãe disse
a partir de agora eu sigo
você fica

a partir desse instante
você mesmo quem fará o milagre

um milagre se inventa
corte e costure
veja se cabe

depois ventile-se
sem deixar de habitar os possíveis

a partir de agora dance como resposta

como se fosse
um dos acessos
para um viver forte
como se fossem falsas armadilhas

a partir de agora
você mesmo há de chamar-se
de minha cria
abrindo mão dos penduricalhos
no prato só carne carne carne

a partir desse instante
é conveniente que essa sua forma
também dissolva-se
e renasça

para que eu não leve nada
além dessa coisa
que me arrasta

nem pense
em abandonar a terra
com seus molhos
mel & catástrofes

antes que eu te esqueça
me abandone em qualquer álbum velho
num silêncio diante de uma árvore

a partir de agora
faça sua ultrapassagem
ultrapássaro

Moisés Alves publicou Cadernos de artista, Onde late um cachorro doido, Coisas que fiz e ninguém notou mas que mudaram tudo e Escrito e Dirigido por Moisés Alves, todos pela Editora Circuito. Tem poemas publicados em jornais e revistas nacionais.

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