Poemas da escritora Paula Vaz

Fotografia: Márcia Charnizon


Fulgor

Esses caçadores do sublime
de onde falam
já não podem voltar

É sempre de uma explosão
que se trata

A natureza animal
assombrada
o gesto afetado
a voz rouca
que fala

O mais etéreo dos perfumes
comovendo
os corpos

Nunca se sabe
– como diria Keith-
o Richards
se terás um orgasmo
ou um infarto

O objeto é a pesquisa

Onde era a verdade
vertigem
Harmonia
Ultraje

Fiar a vida
com fogo ardente
Versar com ela
como um artesão
tocando a matéria

Porque apesar de
Fica o que resiste
do vivo da alegria

do florescer da quaresmeira
tão real quanto breve

Notável e soberano

Disso nascem as flores
amores
as dores e os poemas


Tartaruga

Não é que a Tartaruga
goste de mundo
quase parando.

É que ela tem a saúde
de não perceber
que da concha que se move
não há quem alcance o passo.

Nem Aquiles nem a Lebre.

Que passem à frente dela
todos os apressados.

E recolham da paixão
suas mãos ávidas.

Mas que ao final
todos cheguem ao seu destino

de carta

que faz do endereço extraviado a própria casa


A coruja

Com olho arregalado 
ela emudece
vendo a noite do mundo.

Ela não consegue dormir 
nem falar de amor

Um poeta diria que é porque amor
é feito bomba
nas mãos pode explodir

mas a coruja não tem mão
e impenetrável permanece

É por isso que ela é muda?

Devo pesquisar os modos da coruja
antes que isso termine
e eu conclua a coruja
sem a coruja

Ah, sim,
Lá está ela
Do alto da sua Árvore
ou no chão da estrada
noturna e muda

Mas às vezes ela muda 
Ela grita?

Parece gato com asa
empalhado
e desidratado

O que reidrata a coruja?

She likes the night light, baby!
She likes the night light


O saber do sabão

Era preciso lavar
o saber antigo
os modos de vida consagrados

Era preciso encontrar
uma outra maneira
de rolar o rochedo de sísifo

porque empurrar o rochedo até o cume
e vê-lo descer morro abaixo
torna a vida muito cansativa

Era preciso tocar o mundo
sem as mãos e, ainda assim, recriá-lo
para que ele deixe de ser um museu
de velhas novidades

porque do alto da montanha
como dizia Ponge
pode haver sim
um outro horizonte
que nos conduza a uma outra versão

Menos moralismo, mais liberdade
menos autoritarismo, mais umidade

“SENHORES E SENHORAS A ILUMINAÇÃO É OBLÍQUA”

As leis do ser hão de brotar
à margem de todo pessimismo
a despeito da falta de sentido do mundo
apesar de nós

O saber do sabão
extraído da operação de higiene intelectual
faz cair em ruína toda eloquência
e subir em surdina
pequenas bolhas de luz
que transmutadas
vão ocupando pouco a pouco
seus espaços no ar
em reflexos multicores que se espalham nos céus


O ramo é o anagrama do amor.
Onde não se diz do amor:
o ramo, a flor, algumas folhas

Onde tem amor
tem Amora
Amora da mata
Rosália
amoral

Onde tem amora-vermelha
amor-crescido
amorenado
amorepixuna
amores

Onde tem amores
amores-de-negro
espinho de carneiro
amores-do-campo-sujo
amurado

Amor-febril
a pé
a pata
amorfa

Onde tem amor
amor perfeito bravo
amor perfeito da china
amor perfeito do mato

Onde tem amor
no dorso viridário da paisagem
amor tecer
porque amor tecido
um dia
ainda será poesia

Paula Vaz, poeta, escritora e psicanalista, autora dos livros Não se sai de árvore por meios de árvore. Ponge-Poesia (2014 ); A outra língua: amor (2016) e Deserto (2018) editados e publicados pela Cas’a edições.

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