Thomas de Quincey e o Ópio – Por Leonardo Stockler

Recipiente para armazenamento de ópio do século 18 ou 19 – imagem de Andreas Franzkowiak


Não haveria outro lugar por onde começar os nossos ensaios sobre as drogas e a aventura química da mente na literatura senão pelo muito conhecido trabalho de Thomas de Quincey, Confessions of an English Opium Eater, publicado em 1822. Não apenas o livro imortalizou o seu autor pelo pioneirismo com que abordava as alucinações e o vício no narcótico, como também gerou recepções igualmente imortais por parte de outros atores importantes do cenário literário europeu da época, como o francês Charles Baudelaire.

                Por meio desta obra, na qual se encontram relatos autobiográficos, detalhes científicos e voos narrativos fantásticos, de Quincey esperava exorcizar certos aspectos desinformantes por ele considerados exagerados ou falsos, registrados repetidas vezes na literatura comum que naquela época se fazia sobre o ópio. Estas suas justificativas também se apresentam como que em resposta àquilo que outro poeta de sua geração também ajudava a difundir sobre o assunto, Samuel Taylor Coleridge, a quem de Quincey acusava ter gostado demasiadamente do prazer do ópio.

                Ele, pelo contrário, segundo suas próprias palavras, não se viciou, ou melhor, não partiu em busca do ópio apenas pelo prazer. Desta droga que vinha da Ásia e que chegava à Europa no século do orientalismo, de Quincey ouviu falar quando se haviam esgotado todas as alternativas para aplacar as dores reumáticas e estomacais que sentia num determinado momento de sua juventude. Sim, porque, filho de nobres falidos, o jovem escritor perambulou pela capital britânica e passou fome. Inclinado para a literatura e para a filosofia, ofícios pouco práticos tendo em vista o horizonte da pobreza que se anunciava, logo se viu vitimado por privações e passou a habitar casebres abandonados na companhia de indigentes. Podemos ler em suas próprias palavras: as afecções que o impeliram rumo à droga foram o sofrimento e a desolação – os “dissabores da juventude em Londres”.

                Se na sua busca pela tintura do ópio ele procurou aplacar essas dores físicas e espirituais, qual foi, pois, sua intenção principal ao publicar um relato tão minucioso sobre suas desventuras com a droga? Ora, é curioso notar que de Quincey entendia a si mesmo como um filósofo, e a sua exploração dos efeitos da droga também era, portanto, filosófica. Mais do que qualquer outro artifício experimentado pela humanidade, como o vinho ou a arte, era o ópio quem liberava nele uma tendência inigualável para a abstração e o sonho. Sua reclusão num chalé, acompanhado apenas do frio e dos livros de filosofia (dentre eles Immanuel Kant), é, de algum modo, a criação de uma bolha de sensibilidade. Imerso nessa atmosfera, ele observava o decorrer dos dias, confundindo sonho e vigília, refugiado da normalidade, escondido dos “filisteus” do mundo comum.

                O seu livro é dividido em três grandes capítulos: duas centenas de páginas autobiográficas e introdutórias, seguidas por as volúpias do ópio e as torturas do ópio. No primeiro, observamos o seu esforço em coligir todos os rastros que o levaram na direção do vício. À semelhança das confissões de Santo Agostinho, donde decorre a invenção do texto autobiográfico, vemos o autor sopesar aspectos de sua personalidade e de sua história que amarram e justificam o sofrimento passado, e que explicam os seus vícios e as suas paixões. A autobiografia, vista dessa forma, sempre possui um aspecto de unidade dotada de sentido.

                No segundo capítulo, como assim o nome sugere, observamos a estupefação do autor com a descoberta dos potenciais do ópio. Essa droga, derivada da papoula, e cultivada no sudeste asiático, era vendida a 1 penny nos boticários londrinos. A possibilidade não apenas de aplacar suas dores tão facilmente, mas de mergulhar no “abismo do divino prazer” de forma tão fácil, teria levado de Quincey a crer que o ópio não era outra coisa senão a “panaceia de todos os males humanos”. Inebriado em sua “paz mental”, era inevitável comparar os efeitos dessa nova droga com os efeitos do álcool. De suas palavras, lemos que o álcool é um “prazer agudo” ao passo que o ópio é um “prazer crônico”. Ele argumenta que, assim como o vinho, a droga infunde nos seus usuários uma benevolência dirigida a todos – como que uma expansão das afeições do coração. As diferenças repousavam no fato de que o vinho era “febril ou instável”. Aquilo que no ópio é excitação e estímulo, no vinho é perda de autocontrole e das capacidades motoras. Tampouco há no ópio a ressaca e o torpor que marcam os momentos posteriores à embriaguez do vinho. Filosoficamente, de Quincey entende ainda que tanto a embriaguez quanto o entorpecimento narcótico são reveladores do espírito, posto que as pessoas comuns tendem a se disfarçar na sobriedade.

                O relato de de Quincey brilha em virtude de sua pessoalidade. Talvez, inaugurando isso que chamamos de “literatura psiconáutica”, o escritor inglês entendeu que não haveria uma narrativa mais completa e mais verdadeira das volúpias e das torturas do ópio do que uma que se apoiasse numa tão longínqua experiência pessoal (ele consumiu ópio durante a maior parte da sua vida, ao longo de décadas).

                Nonde reside, pois, o prazer do ópio? No estímulo sensorial e no aumento da capacidade mental para elaborar ainda mais aquilo que chamamos de “prazer intelectual” – o prazer das formas, das cores, dos ornamentos, das arquiteturas e da música. Sua investigação do ópio é, claro, uma investigação da mente – o seu entendimento dos efeitos do ópio é, por tabela, um entendimento da natureza da mente. Isso quer dizer que os prazeres nem sempre são apenas sensoriais, mas também mentais. Encontramos uma elaboração deste raciocínio numa narrativa que de Quincey faz de sua visita à casa de ópera sob o efeito da substância.

                São comuns as representações da época em que vemos usuários de ópio acamados, incapazes de falar ou de reagir a qualquer estímulo externo. Esta é a paisagem das opium dens que existiam tanto em Londres quanto na China ou em Istambul. Tal imagem não poderia ser mais distante daquela do comedor de ópio aqui em questão. De Quincey nos diz que seu passatempo era perambular pela cidade sob o efeito da droga, interagindo com estranhos, contemplando o movimento da vida e a passagem do tempo, indo ao mercado e ao teatro. Isso não acontecia de forma totalmente isenta de sensações negativas – visões da multidão, por exemplo, exerciam uma certa opressão sobre o seu espírito.

                É verdade, então, que essa maneira muito particular de desfrutar dos efeitos do ópio também iria se diferir daquela descrita por Fernando Pessoa, ou seu heterônimo Álvaro de Campos, num poema como Opiário. Ali encontramos uma imagem da droga e dos seus usuários opiômanos um pouco mais condizente com o que se cristalizou no nosso imaginário: para os doentes de ópio, inebriados de tédio, enfastiados com suas falhas, o vício é ao mesmo tempo a sua tortura e o seu remédio.

                A linguagem com que de Quincey descreve os efeitos da droga também é digna de nota. E, talvez, este seja um aspecto a ser observado em toda a literatura que existe e que trata dos estados alterados de consciência. Para narrar estes estados é necessário mobilizar uma capacidade de expressão extraordinária, uma vez que estes efeitos nos deslocam do eixo da normalidade cognitiva. Bem pode ser que estes estados estejam naturalmente afinados com aquilo que a literatura pode fazer, sobretudo a poesia – e Cruz e Sousa seria um exemplo constante da busca por uma tal linguagem no idioma português. Para além daquilo que o de Quincey conseguiu narrar, imaginemos tudo o que não pode ser codificado e trazido para a linguagem humana, os estados mentais e os prazeres subjacentes a estes estados. Sim, pois quando se fala de uma “experiência inefável”, já conseguimos hoje em dia fazer uma ideia do que pode ser essa experiência, considerando o arcabouço e o repertório imortalizado pela literatura psiconáutica. A especulação filosófica ativada pelo ópio, liberta dos códigos da linguagem mais tradicional, aferroada pela normalidade do real, e agindo sobre as agruras e vicissitudes de seu usuário, era então, nestas condições, sentida como uma espécie de “bálsamo para os ferimentos do coração”, algo que “roubava os propósitos da ira” e que “chama ao tribunal dos sonhos”. Foi pelo ópio que de Quincey se viu autorizado a dizer: “eu conheci o que é a felicidade”.

                Tomando mil gotas de láudano por dia, consumindo o ópio regularmente a partir de 1813, o escritor observou o decaimento da sua saúde física e mental a partir de 1817. Neste momento, ele inicia a terceira parte da sua narrativa, dedicada aos problemas legados pelo consumo da droga. Aqui o sentido de sua autobiografia e de sua narrativa se torna mais afunilado, ou melhor, mais explícito. É para alertar os seus leitores: em se tratando dos estímulos químicos da droga, céu e inferno são vizinhos. As alucinações e os sonhos, único fenômeno comunicável desta experiência, tinham suas formas determinadas pelas marcas da infância e da juventude. Observemos então que a individuação psíquica possibilitada pelos efeitos da droga é um desdobramento das situações que formam o caráter do indivíduo ao longo de sua existência. E há aqui, também, um tom de isolamento filosófico, já que não havia referências textuais com as quais de Quincey pudesse se comparar – e tampouco havia em sua vida qualquer outro modelo de experiência semelhante. Mergulhado num “torpor intelectual”, incapaz de elaborar raciocínios dignos de nota, acabou fugindo dos estudos, e suas visões e ideias foram lentamente sucumbindo diante daquilo que seria uma “incapacidade de ação”. Se o ópio trazia algumas bençãos, como a cura das irritações, ele também teria de lidar com a consumpção pulmonar e com o estigma social que acompanhava os usuários desta droga e que afetava não apenas os indigentes e degenerados, mas também artistas e membros da nobreza.

                Há apenas uma grande narrativa dos delírios opiáceos neste livro e o que mais chama a atenção no seu teor é um forte elemento orientalista. Vendo “fantasmas no escuro da noite”, cheio de “ansiedade e melancolia”, descendo aos abismos e subindo de volta, percebendo espaço e tempo se alterarem, o escritor dizia viver “70 anos em uma noite”, quando observava a vida passar diante de si apenas para empreender profundos exames de consciência. Personagens históricos o visitavam em seus sonhos. Rostos estranhos o assombravam. O encontro com um malaio misterioso, num determinado momento de sua vida, então, retornava de forma cada vez mais assustadora e o transportava para os infinitos da Ásia. Os infinitos que de Quincey teria absorvido de forma literária, por influência dos outros autores de sua época, já que nunca foi aportar nestas paragens de fato.

                Dissemos, mais acima, que na passagem do século XVIII para o XIX tivemos o século do orientalismo, porque foi quando a Europa solidificou seu domínio sobre esta outra porção geográfica do mundo, inventando-a intelectualmente, e passou a traduzir para si os textos clássicos daquelas tradições: o Avesta, os Vedas, as Upanixades e o Cânone Pali, todo este riquíssimo arcabouço textual e simbólico penetrava a imaginação europeia com uma força inigualável. Era a colônia assombrando a metrópole e tudo que nele infundia medo era, como se vê, aquilo que o ocidental enxerga de exótico no oriente: o passado insondável, as populações estranhas, os costumes, as cores, os cheiros, as religiões, tudo misturado num turbilhão de mistério.

                Nestes “sonhos tumultuosos”, que se perpetuaram para depois do abandono da droga, de Quincey fugia dos deuses indianos, passeava por florestas tropicais, se assustava com crocodilos e hipopótamos – era como um personagem onírico de um romance fantástico orientalista.

            É provável que este fascínio terrível pelo oriente reverberasse uma descoberta ainda jovem para o imaginário europeu do período. E se considerarmos aqui, mais uma vez, o poema de Álvaro de Campos, veremos que, uma vez devassado este ineditismo e transcorrido quase um século inteiro, o ópio apareceria na literatura como que definitivamente associado ao tédio, ao cansaço, fulgurando enquanto distração. Não existem versos mais apropriados para essa sensação de um oriente cansado do que aquela famosa estrofe do já mencionado Opiário: Eu acho que não vale a pena ter / Ido ao Oriente e visto a Índia e a China. / A terra é semelhante e pequenina / E há só uma maneira de viver.

                Outras coisas podem ser ditas sobre o impacto sócio-histórico do ópio. O fato de que a droga tenha penetrado na Europa a partir do oriente produziu nos europeus, sobretudo nos britânicos, um medo conspiratório em relação aos poderes e as forças ocultas da Ásia. O personagem Fu Manchu, cujo poder mirabolante consiste exatamente na telepatia e o controle mental, é uma representação deste terror acrescentado à imaginação europeia a partir dos conflitos coloniais perpetrados pela presença britânica na China, sobretudo a partir da Guerra do Ópio. Se o ópio serviu para enfraquecer uma cultura e um povo, ele também inseminou sonhos terríveis na imaginação dos europeus que dele faziam uso. Um legado fascinante deste terror é a o texto de de Quincey, pioneiro da literatura psiconáutica.

Leonardo Stockler é historiador formado pela Universidade Estadual Paulista e mestre em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Sua área de pesquisa são as religiões e filosofias orientais, principalmente o hinduísmo, tantra, yoga e o budismo.

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