Aproximação ao miniconto: um depoimento – Por José Eduardo Degrazia

The Big Way (1955), Friedensreich Hundertwasser


Quando comecei a escrever minicontos no início dos anos 701, ninguém parecia ter conhecimento do que se tratava. Um amigo escritor, de geração anterior à minha, confidenciou-me que não entendia aquele tipo de texto. Os mais jovens, no entanto, começaram a se interessar por eles. Essa confusão, ou melhor dizendo, a incapacidade de entender a modificação que aquele tipo de ficção vinha realizando, continuou ainda por um largo tempo. Mesmo tendo escrito, no início dos anos 80, no Lugar do conto do Caderno de Sábado do Correio do Povo, que eram minicontos, quando meu livro O atleta recordista2 ficou entre os três finalistas do prêmio Nestlé, a Folha de São Paulo comentando o livro não fala em minicontos; o reporta ao livro de Dalton Trevisan, publicado dois anos antes, quando alguns dos minicontos do livro citado já tinham vinte anos.

Outra discussão era a de quando se passou a usar, entre nós, a denominação de miniconto para as narrativas breves de menos de uma página a uma página e meia. No já citado Lugar do conto, em que publicava essas produções, fazia comentários sobre os contos enviados para serem publicados no jornal, num desses espaços, em 1980, digo sobre um texto em apreciação: “Não considero um miniconto. Parece um pensamento ou uma ideia irrealizada.” Essa publicação comprova que já tinha consciência do gênero, por influência dos autores hispano-americanos como o mexicano Juan José Arreola, o guatemalteco Augusto Monterroso, os argentinos Cortázar e Jorge Luís Borges, e o cubano Virgilio Piñera. No Brasil já tínhamos exemplos do gênero, como os livros Zooilógico, de Marina Colasanti, e Contos plausíveis, de Carlos Drummond de Andrade. Não cabe aqui mencionar todos os autores que no final dos anos 60 e início de 70 vinham escrevendo narrativas breves, mas existem vários exemplos.

Depois desse apanhado histórico sucinto, que não procura abranger todas as publicações do período em questão, vem a pergunta mais importante: pois bem, o que é o miniconto? São ainda relativamente poucos os trabalhos dedicados ao texto breve e brevíssimo, ao miniconto e ao microconto. Devemos, entre eles, chamar a atenção para a tese defendida na PUCRS por Marcelo Spalding Os cem menores contos brasileiros do século e a reinvenção do miniconto na literatura brasileira contemporânea3, o artigo de Ana Sofia Marques Viana Pensar a multiplicidade na hiperconcisão: o microconto brasileiro contemporâneo (2000-2017)4. Nesses textos podemos encontrar já uma análise importante, tanto sincrônica como diacrônica do microtexto produzido no Brasil.

Ainda, referindo-me aos textos críticos e ensaístico, faço menção ao livro do minicontista e professor da Galícia, Xosé Manuel Eyré, Nin che conto Para coñocer e gozar a micronarrativa5, onde faz um longo estudo sobre o gênero, fazendo um levantamento da bibliografia crítica e trazendo uma antologia de microficção internacional. Um livro que recomendo, pela compilação dos estudiosos e dos principais cultores das narrativas breves e brevíssimas.

Marcelo Spalding, na sua tese citada, diz, sobre Monterroso, p. 26:


Apesar de não termos outra narrativa unifrásica nesse segundo livro, como o célebre “O dinossauro”, a possibilidade estava criada e novos textos com este feitio seriam publicados nos anos seguintes, como “Cuento de horror”, de Juan José Arreola, e “Amor 77”, de Julio Cortázar, ambos dos anos setenta e reproduzidos na antologia La otra mirada. Além disso, textos tidos por poemas em prosa, como os de Rubén Darío, passam a ser associados ao miniconto, pois Monterroso estava não só criando seus sucessores como seus precursores, como diria Borges: “cada escritor cria seus precursores, seu trabalho modifica nossa concepção do passado, como há de modificar o futuro” (1998, p. 98).


A importante citação de Borges, feita por Spalding, nos leva a procurar nos antecedentes do gênero miniconto inúmeros antecessores, como Leonardo Da Vinci, Baudelaire, Ambrose Birce, Ruben Darío, Raymond Queneau, e entre nós, Machado de Assis e Raul Pompéia. O conto depois de Poe chegou aos minimalistas, com Raymond Carver à frente, concentrou-se mais sobre si mesmo, abrindo à participação do leitor a responsabilidade da intelecção e fruição do texto, completando e complementando-o. O conto concentra-se à procura da brevidade e do maior impacto no leitor, cortando tudo o que não é importante para o cerne da história narrada. Chegando até contos e minicontos de meia página a uma página e meia, e, radicalizando como no famoso “Dinossauro” de Monterroso na extrema concisão.

Podemos ver, algumas características do miniconto são: brevidade, concisão, impacto, metáfora, epifania. É um híbrido do conto e do poema, transformando-se proteicamente num novo gênero, mas por suas características saprofíticas, mantendo pontos de contato com os outros gêneros. É radicalmente experimental, aberto, fractal, usando paradoxos e ambivalências; sendo fractal, não procura a unidade, mas a multiplicidade do mundo. Como narrativa, o que o diferencia de outros microtextos: tem de ter personagem, ambientação, local, tempo e ação.

Xosé Eyré, p. 21, cita uma importante definição e diferenciação feita pelo estudioso argentino David Lagmanovich: “(…) propõe distinguir entre microtextos e microrrelatos,”; e, na p. 25:


Parece resultar útil, e necessária, uma distinção ao estilo de Lagmnanovich: microtextos são textos brevíssimos, logo existem microtextos que têm caráter ficcional (microcontos e minicontos) porque não existe dúvida da sua narratividade, e outros que não (aos que chama microrrelatos) e que remetem a gêneros escriturais muito diversos.


Trazendo de volta o assunto para a microficção brasileira, temos a ponderação sobre esse gênero feito pela Professora portuguesa Ana Sofia Marques Viana na revista da Universidade de Brasília, p.3:


Os autores que consolidam a sua produção literária no território do miniconto no novo milénio e que constituem hoje referências ineludíveis neste campo são três: Marina Colasanti, Dalton Trevisan e José Eduardo Degrazia. A referência a estes autores como os mais destacados da produção microficcional que transita entre séculos não é fortuita. Os três escritores não só partilham, como veremos, o gosto já consolidado pela escrita do breve, mas são também imprescindíveis para entender o microconto brasileiro nas suas três linhas ou direções particulares: o microconto fantástico e maravilhoso, o microconto de máxima contenção linguística e o microconto que corteja o discurso cronístico. Se bem que por uma questão prática de análise isolaremos cada uma destas tendências, o certo é que tal divisão é meramente orientativa, já que num mesmo autor ou obra podem confluir em simultâneo mais de uma destas tendências.


A minha finalidade nessa crônica sobre o miniconto foi, de uma parte, elucidar algumas de suas características e história, e, de outra, mostrar a trajetória daqueles que desde os meados do século XX adentraram o século XXI exercitando uma das formas mais experimentais da ficção do nosso tempo. Oxalá, mais escritores, leitores e críticos se interessem pelo tema.


Cinco minicontos do crítico e minicontista galego Xosé Manuel Eyré traduzidos pelo escritor brasileiro José Eduardo Degrazia



– Ío, onde vais correndo assim?
– estou fugindo, mamãe
– E estás escapando do que, meu menino?
– desse lobo
– E por que foges dele?
– porque os lobos comem a gente
– Oh…se é um desenho…Anda, vem aqui, os lobos desenhados não comem ninguém, as coisas que estão pintadas num papel não podem fazer mal a ninguém, e menos ainda comê-las, olha como o pego na mão
…………
– Mamãe…
– Sim, meu menino?
– Nada, nada
…………..
Mamãe, a gente o que faz na barriga dos lobos?


– Toma, pega isto e vai jogar no terraço
Tinha muito o que fazer na casa no dia antes da festa. Sara logo ouviu que o menino chamava em altas vozes
– O que queres? Te machucaste?
– Olha, olha: caiu-me o céu nas mãos


– mamãe, mamãe, porque Deus te deu a mim?


estava brincando na areia da Alameda  e havia outro menino também que se chamava Antón e depois fui ao escorregador e ele também veio atrás e como demorei em descer bateu em mim com seus pés pesados e perguntou-me se eu chorava e eu lhe disse que eu era educado


– papai, o teu computador não fala galego
– Não, meu filho, é um defeito que muitas máquinas têm

Textos mencionados e referências:

1. Degrazia, José Eduardo; Caderno de Sábado do Correio do Povo, O escorpião; Os Monstros, 15 de Março de 1975; Letras de Hoje, A outra face, setembro de 1974; Jornal Movimento, Os monstros, 2 de agosto de 1976. Caderno de sábado de 23 de fevereiro de 1980, onde menciono o gênero miniconto.

2. Degrazia, José Eduardo; O atleta recordista, Ed. Movimento, Porto Alegre, 1996.

3.https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/13816/000651683.pdf?sequence=1&isAllowed=y

4. https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/29321/25087

5. Eyré, Xosé Manuel; Nin che conto Para coñecer e gozar a micronarrativa; Edições Gerais de Galicia, Vigo, 2008.


José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951. Como escritor tem publicados livros de contos, poesia, novela e infanto-juvenil.

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