Poemas de Tao Yuan Ming traduzidos por Chiu Yi Chih


Tao Yuan Ming (365–427) foi um poeta chinês do período das Seis Dinastias. Tao passou grande parte de sua vida em reclusão, vivendo no campo, cultivando, lendo, bebendo vinho, recebendo poucas visitas e escrevendo poemas sobre a simplicidade e a efemeridade dos acontecimentos em busca de uma visão mais harmonizada a partir dos ensinamentos da sabedoria taoísta.

 

1


荒草何茫茫,白杨亦萧萧。
严霜九月中,送我出远郊。
四面无人居,高坟正嶕峣。
马为仰天鸣,风为自萧条。
幽室一已闭,千年不复朝。
千年不复朝,贤达无奈何。
向来相送人,各自还其家。
亲戚或余悲,他人亦已歌。
死去何所道,托体同山阿。

*

huāng cǎo hé máng máng, bái yáng yì xiāo xiāo.
yán shuāng jiǔ yuè zhōng, sòng wǒ chū yuǎn jiāo.
sì miàn wú rén jū, gāo fén zhèng jiāo yáo.
mǎ wèi yǎng tiān míng, fēng wèi zì xiāo tiáo.
yōu shì yī yǐ bì, qiān nián bù fù cháo.
qiān nián bù fù cháo, xián dá wú nài hé.
xiàng lái xiāng sòng rén, gè zì huán qí jiā.
qīn qī huò yú bēi, tā rén yì yǐ gē.
sǐ qù hé suǒ dào, tuō tǐ tóng shān ē.

*

As ervas selvagens se estendem ao infinito, enquanto o salgueiro branco, sussurrando, desprende as suas folhas. O outono se adensa com a geada e me leva a sair de casa. Por todos os lados, só se vê a terra desolada onde não há nenhuma presença humana. Os túmulos se elevam como terra empilhada e os cavalos se afligem sob o canto dos pássaros. O vento é arrebatado pela minha tristeza. As próprias sepulturas se enclausuram em segredo e, durante gerações e gerações, jamais se revelam, permanecendo irremediavelmente distantes e solenes. Sempre há enterros e, após cada funeral, cada um retorna ao seu lar. Os parentes dos mortos padecem de uma dor terrível. Há aqueles que cantam com rostos sorridentes. É inexprimível o sentido da morte. Os túmulos com os seus cadáveres se assemelham às altas montanhas.


2


靡靡秋已夕,凄凄风露交。
蔓草不复荣,园木空自凋。
清气澄余滓,杳然天界高。
哀蝉无留响,丛雁鸣云霄。
万化相寻绎,人生岂不劳? 
从古皆有没,念之中心焦。
何以称我情? 浊酒且自陶。
千载非所知,聊以永今朝。

*

mí mí qiū yǐ xī, qī qī fēng lù jiāo.
màn cǎo bú fù róng, yuán mù kōng zì diāo.
qīng qì chéng yú zǐ, yǎo rán tiān jiè gāo.
āi chán wú liú xiǎng, cóng yàn míng yún xiāo.
wàn huà xiàng xún yì, rén shēng qǐ bú láo?
cóng gǔ jiē yǒu mò, niàn zhī zhōng xīn jiāo.
hé yǐ chēng wǒ qíng? zhuó jiǔ qiě zì táo.
qiān zǎi fēi suǒ zhī, liáo yǐ yǒng jīn cháo.

*

O tempo se desvanece rapidamente. Já é o fim de outono. O vento forte e o gélido orvalho se entrelaçam. As ervas perdem o seu viço. As árvores do jardim emurchecem e fenecem. O ar límpido se ergue no vastíssimo céu. É uma pena que as cigarras não cantam mais. Apenas se ouve o canto de uma multidão de gansos entre os píncaros das nuvens. Incomensuráveis mutações. Seria absurda a existência humana? Desde os primórdios, sempre houve a morte e, só de pensar nela, minha mente se inquieta. Como posso estar contente comigo mesmo? Ao beber o vinho, sinto-me livre. Não penso mais no futuro. Por um breve instante, amo apenas o presente.


3


人生归有道,衣食固其端。
孰是都不营,而以求自安?
开春理常业,岁功聊可观;
晨出肆微勤,日入负耒还。
山中饶霜露,风气亦先寒,
田家岂不苦? 弗获辞此难。
四体诚乃疲,庶无异患干,
盥濯息簷下,斗酒散襟颜。
遥遥沮溺心,千载乃相关,
但愿长如此,躬耕非所叹。

*

rén shēng guī yǒu dào, yī shí gù qí duān.
shú shì dōu bù yíng, ér yǐ qiú zì ān?
kāi chūn lǐ cháng yè, suì gōng liáo kě guān.
chén chū sì wēi qín, rì rù fù lěi huān.
shān zhōng ráo shuāng lù, fēng qì yì xiān hán,
tián jiā qǐ bù kǔ? fú huò cí cǐ nán.
sì tǐ chéng nǎi pí, shù wú yì huàn gàn,
guàn zhuó xī yán xià, dǒu jiǔ sàn jīn yán.
yáo yáo jǔ nì xīn, qiān zǎi nǎi xiāng guān,
dàn yuàn zhǎng rú cǐ, gōng gēng fēi suǒ tàn.

*

Toda a existência humana retorna ao Caminho. Se os alimentos e as vestimentas são primordiais, quem poderia negligenciá-los e sobreviver sem eles? No início da primavera, os homens semeiam e, sempre uma vez ao ano, realizam a colheita. Saem cedo para a árdua labuta e, no entardecer, retornam, carregando as ferramentas do trabalho. Entre as montanhas selvagens, acumula-se uma imensa névoa com o ar gélido do vento e do orvalho. Não é dolorosa a vida no campo? Porém, não se pode evitá-la. Embora o corpo fique cansado, talvez seja possível afastar a dor se pudermos lavar as mãos e os pés sob o peitoril da janela, bebendo e conversando, tal como os eremitas Zhang Ju e Jie Ni, que após muitos anos, ainda cultivam a afeição mútua. Para aspirar a uma vida longeva como essa, basta cuidarmos com alegria da nossa própria mente como se fosse uma terra a ser cultivada.


4


道丧向千载,人人惜其情。
有酒不肯饮,但顾世间名。
所以贵我身,岂不在一生?
一生复能几? 倏如流电惊。
鼎鼎百年内,持此欲何成?

*

dào sàng xiàng qiān zǎi, rén rén xī qí qíng.
yǒu jiǔ bù kěn yǐn, dàn gù shì jiān míng.
suǒ yǐ guì wǒ shēn, qǐ bù zài yī shēng?
yī shēng fù néng jǐ? shū rú liú diàn jīng.
dǐng dǐng bǎi nián nèi, chí cǐ yù hé chéng?

*

Há muito tempo o Caminho foi perdido e os homens se afastaram da sua Natureza Originária. Se há o vinho, eles não querem bebê-lo, pois querem conservar a imagem da sua reputação. Mas,  minha vida não é a única coisa valiosa? Quanto tempo durará essa existência? É tão fugaz como o fulgor do relâmpago que minha mente se aflige. Para que desperdiçar meses e anos buscando a reputação? Perseguindo a reputação, alcançaria a plena realização?


5


忆我少壮时,无乐自欣豫。
猛志逸四海,骞翮思远翥。
荏苒岁月颓,此心稍已去。
值欢无复娱,每每多忧虑。
气力渐衰损,转觉日不如。
壑舟无须臾,引我不得住。
前途当几许,未知止泊处。
古人惜寸阴,念此使人惧。

*

yì wǒ shào zhuàng shí, wú lè zì xīn yù.
měng zhì yì sì hǎi, qiān hé sī yuǎn zhù.
rěn rǎn suì yuè tuí, cǐ xīn shāo yǐ qù.
zhí huān wú fù yú, měi měi duō yōu lǜ.
qì lì jiàn shuāi sǔn, zhuǎn jué rì bùrú.
hè zhōu wú xū yú, yǐn wǒ bùdé zhù.
qián tú dāng jǐ xǔ, wèi zhī zhǐ bó chù.
gǔ rén xī cùn yīn, niàn cǐ shǐ rén jù.

*

Ao recordar da minha juventude, considero-me feliz ainda que não tenha vivido nenhuma ocasião de bem-aventurança. Com uma vontade destemida que se evade para além dos quatro mares, alço as asas do pensamento aos píncaros longínquos. Indistintamente, o tempo se esvai e também a minha mente se desvanece. Nos momentos de alegria, nem sinto mais júbilo e, a cada instante, cresce o meu tormento. Aos poucos, com o ânimo esmorecido, sinto a dissolução do tempo. Como um barco se precipitando nas águas do desfiladeiro, os anos juvenis me envolvem nos seus vórtices incessantes. Nada adivinho dos dias vindouros e tampouco conheço o porto do meu destino. Os antigos estimavam as ínfimas horas, cujas rememorações atemorizavam o coração humano.


6


自古叹行役,我今始知之。
山川一何旷,巽坎难与期。
崩浪聒天响,长风无息时。
久游恋所生,如何淹在兹?
静念园林好,人间良可辞。
当年讵有几? 纵心复何疑!

*

zì gǔ tàn xíng yì, wǒ jīn shǐ zhī zhī.
shān chuān yī hé kuàng, xùn kǎn nán yǔ qī.
bēng làng guā tiān xiǎng, zhǎng fēng wú xī shí.
jiǔ yóu liàn suǒ shēng, rú hé yān zài zī.
jìng niàn yuán lín hǎo, rén jiān liáng kě cí.
dāng nián jù yǒu jǐ? zòng xīn fù hé yí!

*

Desde tempos remotos, os homens se queixam de seus sofrimentos. Hoje eu também sinto a mesma dor. Imensuráveis rios e montanhas! Imprevisíveis e incessantes tormentas! Ondas tenebrosas estremecem e reverberam com estrondos no céu. São intermináveis as rajadas de vento. Vagando por  regiões desconhecidas, fico com saudades da minha terra natal. Como permaneceria aqui por mais tempo? No bosque do meu jardim, medito em silêncio e desejo abandonar minha carreira mundana. Quanto dura a existência humana? Sem nenhuma hesitação, seguirei a voz do meu coração!


7


代耕本非望,所业在田桑。
躬亲未曾替,寒馁常糟糠。
岂期过满腹,但愿饱粳粮。
御冬足大布,粗絺已应阳。
正尔不能得,哀哉亦何伤!
人皆尽获宜,拙生失其方。
理也可奈何,且为陶一觞!

*

dài gēng běn fēi wàng, suǒ yè zài tián sāng.
gōng qīn wèi céng tì, hán něi cháng zāo kāng.
qǐ qī guò mǎn fù, dàn yuàn bǎo jīng liáng.
yù dōng zú dà bù, cū zhǐ yǐ yīng yáng.
zhèng ěr bú néng dé, āi zāi yì hé shāng!
rén jiē jìn huò yí, zhuō shēng shī qí fāng.
lǐ yě kě nài hé, qiě wéi táo yī shāng!

*

Jamais desejei assumir cargo de oficial. Somente queria semear no campo das amoreiras. Nunca cessei de plantar. Porém, sob a penúria do frio e da fome, alimento-me dos míseros grãos. Nem preciso de comida em excesso para satisfazer meu ventre. Somente quero saciar minha fome de maneira simples, possuindo um casaco rústico para enfrentar o frio e uma camisa de cânhamo para suportar o calor. Ainda que a realidade seja contrária aos meus desejos, nem por isso ficarei angustiado! Cada um cumpre seu próprio dever. Sou um néscio sem a astúcia da arte de sobreviver. Sendo inexoráveis as circunstâncias, beberei um copo de vinho para dissolver a minha aflição!

Chiu Yi Chih (邱奕智) é chinês nascido em Taiwan e naturalizado brasileiro, professor de filosofia chinesa clássica e de mandarim.

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