Sobre ferramentas e velocidade – Por Gabriel Frias

Arranha-céus e túneis (1930), de Fortunato Depero


Ontem lia uma pequena reflexão feita por uma psicóloga (@psi.vivianne) no insta acerca da incrível “ferramenta” disponibilizada pelo WhatsApp que acelera os áudios e “economiza o tempo”. Uau, que bacana, não? Bem, o texto falava sobre nossas perdas de vínculos, sobre a sociedade do cansaço e os custos humanos de toda essa praticidade. Fiquei então curioso. Eu que não tinha até então usado essa fabulosa ferramenta, decidi testá-la. Já repararam como isso tudo é neurótico e aflitivo? Tentei ouvir um áudio frenético em 2x e acabei sentindo apenas taquicardia e confusão mental. Aproveitei então o ensejo para rabiscar algumas linhas e ideias.

Incrível como essas plataformas e aplicativos parecem pensar em tudo, sempre à frente, oferecendo até o inimaginável, o inconcebível, vendendo inutilidades que logo se aderem ao cotidiano. A distopia é cada vez mais crescente e próxima. Lembrei-me de um filme bobo assistido há muitos anos: Click, com o Adam Sandler, e me espantou pensar que aquilo tudo de algum modo tornou-se real. O filme é raso, o roteiro, simples, mas, diluído no humor traz uma conclusão de incrível obviedade: a de que estamos vivendo a vida no modo turbo. E que, ao fim, apenas passamos por ela.

Saindo, porém, da metáfora das ferramentas e controles remotos, a verdade é que há no culto à máquina um forte componente desumanizador, especialmente a exaltação à velocidade, à marcha frenética, à dominação do tempo, porque torna nós, homens, supérfluos, subjugados, senão até servis. Acentua nossa impotência, nossas frustrações e nossa ansiedade. O culto à máquina e à velocidade, assim, em alguma instância colabora para nos tornar a nós homens insignificantes e descartáveis. Isso sem contar seu imensurável poder de destruição. Mas, a busca por vínculos, humanos que somos, não desaparece e o desejo de participar de alguma forma de conexão irrealizável e reprimida muitas vezes acaba por reavivar, ainda que inconscientemente, os pesadelos e pulsões totalitárias, o horror do extermínio e desejo da destruição. Em um mundo de “ferramentas”, da técnica cega e da racionalidade estéril, não há espaço para o humano. O homem é esmagado pela máquina. “O esplendor do mundo se enriqueceu com uma nova beleza: a beleza da velocidade. Um automóvel de carreira é mais belo que a Vitória de Samotrácia”, dizia o poeta futurista Filippo Tommaso Marineti em 1909.

Não espanta que muitos dos artistas ligados ao Futurismo italiano, vanguarda artística do início do séc XX, terminaram por associarem-se a Mussolini. A linguagem destrutiva, acelerada e neurótica dos futuristas acabou por encontrar na gramática do fascismo uma forma de realização. O resto, vocês já conhecem. A verdade é que há uma identificação profunda entre máquina, tecnologia, dominação e totalitarismo que nos recusamos a enxergar, oculta mesmo no nosso cotidiano e na exaltação de uma tecnologia doméstica aparentemente dócil e inofensiva. Assim, a aparição de ferramenta tão peculiar não seja talvez mera coincidência, mas, um sintoma e um sinal preocupante do espírito e vocação de nossa época. Tempos líquidos? Até isso já é passado. Parece que já ultrapassamos a barreira do líquido.

Há algo de maluco quando pensamos que vivemos acelerando tudo, encurtando tudo, economizando tempo (não se sabe para o quê) e ainda sim vivemos cansados. Aceleramos até mesmo conversas, encontros, fugimos de interações e vínculos, evitamos textos longos ou os interrompemos ante ao tédio. A tentação de acelerar é grande. Permite a ilusão de apropriar-se de tudo em menor tempo, de poder julgar rápida e apressadamente, claro, o que é digno de nossa atenção e o que não é, o que merece nosso tempo ou quando economizá-lo logo para algo mais produtivo que em geral não é nada além de apenas seguir consumindo, farejando, buscando como cães esfaimados, revirando as latas de lixo virtuais. O que fica, no entanto? A verdade é que sequer olhamos os rastros que deixamos para trás, seja de vínculos ou de coisas. E descartando tudo e tudo, um dia acabaremos nós por sermos descartados também.


Gabriel Frias é advogado e professor universitário.

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