“Laurinho criou o verão nas Estrelas…” – Por Flávio Viegas Amoreira


O verão é naturalmente praiano, um fenômeno cultural costeiro, verão no interior de qualquer continente é estio para arar, sem a atmosfera do esplendor gozoso do mar costeado de ondas. O verão nos trópicos torna-se ainda mais essa aura de desenlace rebeldia e busca pelo tórrido contato hedonista e corporalidade desnuda. O verão só existe diante o Oceano, permitam-me a radicalidade dum suarento boêmio ‘voyeur’ de quem passa a caminho de bronzear. Os verões dum poeta são a curva entre o bar e uma silhueta ensolarando capaz de voltar. É contemplação etílica de musas e surfistas, gladiadores das vagas com bafejo de todas maresias. O cinema rima com verão em forma de nostalgia: é a estação para fixar, saudade dum relance, distanciamento em planos amplos e assim rememoro “Bete Balanço” não com intelecção, mas como um instantâneo fixado em minhas retinas e epiderme já bem escaldadas. Cinema é mais que reflexão, é ‘contaminação virtuosa’ pela emotividade: daí que cito a polêmica frase de Paulo Emílio Salles Gomes ao vociferar lindamente: “o pior filme brasileiro é melhor que o melhor filme estrangeiro”. Logicamente que esse nacionalismo dum intelectual cosmopolita só teve condão de levar ao limite a necessidade de um país se reconhecer, se revelar, identificar-se visual, plasticamente. “Bete Balanço” expressa esse simbolismo múltiplo para quem nasceu nos anos 60 e já tinha pouca Utopia para sonhar, mesmo lutando novos sonhos em tanto ‘lusco-fusco’.

Trata-se duma fita geracional, documento ‘zeitgeist’, que tem valor de arqueologia urbana, um ‘rebobinar’ de evanescências e registro temporal que ainda deita raízes em Cultura como atitude e estilo. Atitude, termo tão batido e aplicável! Os anos 80 me parecem na superfície mais remotos que os anos 20, mesmo sua força em cada hábito dessa atual trans-modernidade. Uma década não é estanque a um corte de cabelo ou bainha de calça, seus efeitos só são medidos em placas tectônicas muito além da cronologia. O verão de 1985 foi um eixo, vértice implodindo e reforçando nos estilhaços todas certezas e contestações desde o pós-guerra. A praia era mais do que nunca o nirvana para o bode pós-desbunde, estávamos no limiar e desfecho de tantas mutações! O computador pessoal já engatinhava, a produção independente em música e literatura pré-digitalização proliferavam bandas e edições alternativas de poetas alucinados, surgiam ‘hip hop’, ‘techno’, de Seattle passando por Katmandu, o som de garagem casava com a ‘new age’. Tudo era ‘mix’: punks, darks e beatniks tardios conviviam com execráveis ‘figurinhas’ do planeta dividido entre Reagan/Thatcher com o falacioso ‘neo-liberalismo’ e seus ‘yuppies’: vivíamos na corda bamba num “clip sem nexo entre bossa-nova e rock´and roll”. Enquanto bebíamos freneticamente no primeiro ‘Rock in Rio’ embandeirados de verde-amarelo saudávamos a redemocratização com uma vitória ‘meia-boca’ de Tancredo e a derrota das Diretas-já ainda nó na garganta. Lógico que aos 18 anos vendo pela primeira vez “O último tango em Paris” de Bertolucci e “Saló” de Pasolini, sabia que a trilogia de Lael Rodrigues: “Bete Balanço”, “Rock Estrela” e “Rádio Pirata” já nascia datada, mas era a essência desse verão que permaneceria com seus lugares e rostos: a Cinelândia brizolista, a Farme de Amoedo ‘entendida’ tinham correspondentes em São Paulo com o ‘Lira Paulistana’, e Santos muito mais antenada e cosmopolita com ‘Heavy Metal’ e o canto do cisne da velha Boca. “Bete Balanço” faz-nos lembrar que o nosso ‘Studio 54’ eram as praças apinhadas de jovens lindos sem preocupar-se em serem ‘sarados’: a Beleza era substantiva, estava ali úmida e entumecida mesmo que espreitada pelo pânico: a Aids!

Escrevo esse ensaio como quem saúda os que tombaram órfãos duas vezes: por uma Utopia que não morreu com o muro e pelos tantos amigos e amores que partiram quando nosso amor era um ‘risco de vida’ e nossos “inimigos estavam no poder”. O verão de 85 me leva a um bar na Praça Sezerdelo Correa: ouvíamos Cazuza e esse escritor passava tardes nessa Copacabana onde todos poetas eram célebres e atores buscavam poesia. Foi o verão de Laurinho Corona e nossas cartas são testemunho: confesso que sobrevivi para contar que o verão é jovem porque ele se repete!


Flávio Viegas Amoreira. Escritor, poeta. Colunista da seção “Terra em Transes” da Revista Piparote.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: