“Joyce e Pound: velhos amigos” – Por Céllus

Fotografia do alemão Horst Tappe


Em 1967, o poeta americano Ezra Pound visitou o túmulo do escritor irlandês James Joyce no cemitério de Fluntern, em Zurique. Joyce morreu nesta cidade em 1941. Sua viúva, Nora Barnacle, solicitou que o escritor fosse enterrado na Irlanda, mas as autoridades irlandesas negaram o pedido – Joyce era persona non grata em seu país por conta de seus escritos.

O momento que foi registrado pelo alemão Horst Tappe, notório pelas fotografias de pintores e escritores, é de uma beleza ímpar. Pelo registro histórico: um gigante da literatura próximo de seu crepúsculo – Pound morreria em 1972 – observando um de seus pares, outro gigante já circunscrito na eternidade histórica, morto 26 anos antes; e pela poética da imagem: a distância entre as figuras torna a cena uma alegoria sutil: um caminhante notadamente cansado observa outra figura descansada, contemplativa da experiência humana, a partir de um estado eterno, pétreo, perene. A bela estátua de Joyce é de autoria do escultor americano Milton Hebald, falecido em 2015.

Um dos grandes poetas do século XX, Pound foi um dos primeiros e colossais incentivadores da obra de Joyce. Mantiveram contato pela vida toda através de extensa correspondência, já reunida em livro. Pound foi para Londres em 1908, onde conheceu William Butler Yeats, poeta irlandês de quem foi secretário, e a primeira pessoa a lhe falar de Joyce. Pound teve contato com a obra de Joyce em 1913 e resolveu publicá-la na sua antologia de poetas do Imagismo – movimento de vanguarda que privilegiava uma poesia coloquial, sem preocupação métrica e com um uso ostensivo de imagens. Por sua influência junto a várias revistas literárias nos EUA, Pound conseguiu que Joyce fizesse suas primeiras publicações dos contos de “Dublinenses” e dos primeiros capítulos de “Retrato do artista quando jovem”, como também dos primeiros e escandalosos excertos de “Ulisses”. Foi Pound também o responsável por Joyce ter conhecido sua grande mecenas, a milionária americana e editora, Harriet Shaw Weaver, dona da revista The Egoist, a primeira a publicar a obra de Joyce. Posteriormente, Harriet S. Weaver ajudou financeiramente Joyce – inicialmente de forma anônima – permitindo que ele parasse de dar aulas de inglês e se dedicasse integralmente à literatura. Graças a essa ajuda, que se estendeu por anos e custou uma parte considerável da fortuna de Weaver, Joyce conseguiu concluir “Ulisses”, que lhe tomou 7 anos de trabalho, e a posterior criação de sua obra-prima, “Finnegans Wake”, que levou longos 16 anos. Segundo o próprio Joyce, “Finnegans Wake” é “uma série de túneis escavados em uma montanha” por quase duas décadas, um “maldito livro que pretende contar a história do mundo”.


Céllus é cartunista e ilustrador.

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