Seis poemas inéditos de Elizabeth Hazin

Alma

Condenam-me ao silêncio mais cruel:
o silêncio da alma
enquanto a pegada do corpo
fica impressa no chão.
Não falar é a pior tortura.

Falo dessa fala
própria da alma
que os deuses temem
pois jamais se cala
e continua
queimando o corpo
lentamente com sua chama.

A toda palavra que sai de minha boca
longe longe
responde o vento
com a mesma fria palavra
que me devolve
a sombra apenas
do que penso.

A alma é tão-somente um fogo
vívido e chamejante
crestando a pele do corpo
– veste
de que ela própria se reveste.

Mas esse fogo é tudo
pois sem ele
o corpo se estiola:
folha vermelha que torna
inevitável o outono.


Impossível ousadia

Ninguém ousa, quem ousaria?
Aquele que ousar esquivar-se à Morte
nela tropeça dois degraus após
enquanto a lua no alto escala as escarpas do céu
e os animais se recolhem à toca.

É noite é sempre noite
quando ela torna
em seus passos
-leve como nada –
alguém em mira.

Quem nesse mundo ousaria?
Suave o seu hálito
macio o seu toque
evite-se o passo esquerdo
a palavra fácil:
aos ouvidos da Morte
tudo ressoa inútil
se em vão se chora, em vão se foge ao tropeço.


Círculo vicioso

a cada volta da tarde
um pássaro se debate
marcando as asas em mim
o seu suplício ou saudade
de tudo o que ele não sabe
pois nunca fugiu daqui
tem força de uma revolta
e estremece a toda volta

que cada tarde descreve
digo-lhe como consolo
que dele não fugiria
dentro dele enfeitiçada
num círculo que se vicia
estou presa acorrentada
pra todo o sempre amarrada
por mais que amanheça o dia


Fragilidade

É de vidro a fibra
a lã
tecendo a clara
manhã.

É de vidro a pedra
-palavra –
riscando o vidro
da casa.

É de vidro o sonho
mais alto
tomando a casa
de assalto.

É de vidro o mar
amargo
cortando o corpo
nau frágil.


De perto

Posso fazer-me tão velha como o mundo
musgo que se abandona às reentrâncias das pedras
e, impregnada de séculos,
passear os meus sonhos
como se fossem palpáveis.

Posso fazer-me tão leve como nuvens
sonho que se abrevia na periferia da noite
e, cheia de subterfúgios,
diluir-me na vida
e esconder-me no tempo.

Posso fazer-me tão pura como nada
poema que se insinua inacessível e belo
e, sem um outro refúgio
que não o medo de tudo sentir a vida de perto.


Cantiga

PEGA O VERSO E SOLTA A RIMA
PEGA A RIMA E SOLTA O VERSO
DENTRO DA RIMA A MENINA
DENTRO DO VERSO O UNIVERSO

de palavras faço um jogo
que se vira na canção
palavras em minha mão
troco tudo o tempo todo
o universo é muito pouco
cabe todo em minha língua
muito viva essa menina
quando canta se atravessa
troca tudo pois tem pressa
PEGA O VERSO E SOLTA A RIMA.

Bem depressa o jogo inverto
gira  todo o pensamento
muda o jogo num momento
volta tudo pro começo
viro o canto pelo avesso
torno tudo tão diverso
digo um verso e seu reverso
mas a voz não desafina
muito louca essa menina
PEGA A RIMA E SOLTA O VERSO.

Como se faz a canção?
nunca os tenho ao mesmo tempo
pois o verso se sustento
a rima foge da mão.
Não se resolve a questão
o jogo assim não termina
não sei se verso ou se rima
sei que se dentro do verso
cabe todo esse universo
DENTRO DA RIMA A MENINA.

Entre o universo e a menina
a canção  já nasce pronta
a menina faz de conta
que esqueceu como termina
só para inventar a rima
ou desinventar o verso.
Desinvento e não converso.
Mas é só de brincadeira
se na rima estou inteira
DENTRO DO VERSO O UNIVERSO.


Elizabeth Hazin nasceu no Recife, em 1951. Tem poemas publicados em diversas antologias e revistas nacionais e estrangeiras.

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